Evocando os Antigos.

por jonasscherer

Fotografia do acervo pessoal de Denílson.

Talvez o maior apreciador da obra de Howard Phillips Lovecraft no Brasil, o paulista Denílson TxT fala sobre o volume coletivo organizado por ele e intitulado “O Mundo Fantástico de H. P. Lovecraft” – com publicação prevista para 2012. O livro traz traduções inéditas de boa parte das produções do escritor e é destaque por ser a primeira obra editorial brasileira impressa do tipo terror/horror/fantasia  fruto de esforços conjuntos. 

Entrevista conduzida por e-mail entre 3 e 5 de agosto de 2012.

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Jonas Scherer: Tu obviamente gostas de livros e de leitura. Como isso começou?

Denílson: Quando tinha oito anos, li o conto “The Black Cat” de Edgar Allan Poe. Foi meu primeiro contato com literatura de horror. Entretanto, uns anos antes, tinha lido “Alice no País das Maravilhas”, que é um livro que lembro com saudosismo até hoje.

Jonas Scherer: Com oito anos tu estavas lendo um conto sobre uxoricídio e insanidade. Foi aí que começou a tua carreira como consumidor de literatura de horror/terror?

Denílson: Na verdade, esse conto de Edgar Allan Poe – O Gato Negro – despertou meu interesse por literatura fantástica, mas que permaneceu um pouco adormecido, pois mais ou menos nesta época – saudosa década de 80 – foi quando também me tornei fã de bons filmes de terror e também daqueles trash films, assumindo para mim uma posição de destaque frente à literatura.

Jonas Scherer: E o gosto por Lovecraft, surgiu de onde?

Denílson: Em meados de 2003, quando o avô de uma antiga amiga faleceu, ele deixou um baú. Esse baú continha muitas coisas interessantes, entre elas o livro “O que sussurrava nas trevas”- Edições GRD, 1966 – o primeiro livro de Lovecraft impresso no Brasil. Comprei ele por um preço irrisório e daí veio meu interesse por esse escritor. Com o tempo fui adquirindo obras e mais obras até formar hoje umas das maiores coleções do autor que conheço.

Jonas Scherer: Tu conheces mais pessoas que têm coleções de Lovecraft?

Denílson: Na verdade nunca cheguei a ver outra coleção a não ser a minha. Escuto um ou outro falar a respeito, mas certamente muitos colecionam livros do autor.

Jonas Scherer: “O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft” vai vir para engordar a sua coleção.  Que livro é esse, afinal?

Denílson: Esse livro é um livro de fãs e admiradores do escritor, mas, ao mesmo tempo, um livro com um certo aspecto acadêmico. Ele é uma antologia de contos, ensaios e poesias. Tudo nele foi bem pensado e discutido pelo grupo de voluntários que se formou e por outras pessoas que livremente queriam dar suas opiniões.

O interessante desse livro é que por melhores que fossem as ideias iniciais, com o tempo e auxílio dos demais, muita coisa foi modificada e/ou melhorada. Um exemplo disso foi a questão da seleção de contos: pensei em colocar contos de fãs, mas, com o tempo e opiniões contrárias, vi que realmente não era um boa ideia.

Jonas Scherer:  Quanto da obra de Lovecraft esse livro abrange? 

Denílson: Embora o livro seja grande – cerca de 500 páginas – está ainda longe de chegar à metade da obra do autor. A ideia de uma antologia foi exatamente para que, nesta quantidade de páginas, déssemos uma visão geral do universo do autor.

Jonas Scherer: Conheces alguma outra obra em português que tenha tal abrangência?

Denílson: Somos muito críticos de obras lançadas em língua portuguesa, seja aqui no Brasil ou mesmo em Portugal. Nos últimos anos, a Editora Hedras vem lançando uma coleção que tem vindo com uma boa tradução e inclusive com algum material extra no apêndice. É difícil e talvez antiético falar de nosso próprio livro frente a outros especificamente, mas posso dizer que tenho gostado muito da proposta desta editora que já está na estrada há alguns anos.

Jonas Scherer: E o que é a Eldritch Society? Foi criada no Brasil?

Denílson: Hoje em dia muito se tem falado de crowdfunding, que é um sistema de financiamento coletivo de projetos dos mais diversos. Antes mesmo deste fenômeno aparecer no Brasil, no começo de 2010 – que foi quando demos o start na campanha – já tínhamos essa ideia de arrecadar recursos para a publicação independente desse livro.

Foi curioso observar que muitos amigos me deram a sugestão de montar um crowdfunding, entretanto, o que eles não sabem é fomos pioneiros nisto no Brasil. É claro, do nosso modo. Quem sabe no futuro, se tivermos outro projeto, nos filiemos a algum site específico sobre isso, já que tomou uma forma muito grande esse tipo de financiamento.

A esse grupo demos o nome de Eldritch Society (Sociedade Sobrenatural). Graças a todos que esse projeto está deixando o papel para se tornar realidade. Além disso, outra coisa inédita era que quem fizesse parte da sociedade poderia, se quisesse, ter seu nome/apelido publicado na última página do livro, e isso foi um grande impulsionador das vendas.

Jonas Scherer: A sociedade vai terminar com a publicação do livro? Por sinal, para quando está prevista essa publicação?

Denílson: A sociedade termina com a publicação do livro. Mas, quem sabe um dia, se tivermos outro projeto, ela possa ressurgir.

A publicação do livro teve alguns atrasos, para se ter uma ideia, eu imaginava publicar em fevereiro! Mas esse foi um erro de cálculo muito grande. É difícil ainda dar uma data certa para o livro, porque embora tenhamos muitos colaboradores, a organização da coisa sou apenas eu que faço e isto inclui toda a logística de recebimento de depósitos, confirmação, cadastro, envio de resposta de email. Fora fazer todos os pacotes, postar nos correios, enviar o id track por email, etc… Talvez alguns possam achar estranho alguns atrasos, mas tem de se considerar primeiro a questão da qualidade, pois, por mais que eu possa adiantar algo, não vou comprometer o trabalho de três anos por conta de alguns meses a mais, por isso estou tranquilo nesse sentido.

Às vezes, atrasos de outros momentos estão refletindo agora. Por exemplo, ficamos muito tempo, até um pouco a mais do que o normal, na revisão, e isto atrasou a diagramação. Para atrapalhar ainda mais, alguns de nossos colaboradores adoeceram no meio do caminho. Vejam, esse livro não conta com uma editora comercial por trás: se alguém fica doente num serviço, é substituído por outro, e a coisa continua, fora o fato de cada um do corpo editorial trabalhar oito horas por dia com um livro. Será que todos daqui despenderam tanto tempo assim por dia? Aí é que está a diferença: é claro que  a qualidade não entra muito aí, é a questão de tempo no prelo apenas.

Jonas Scherer: Quem não pôde ou se esqueceu dos prazos para adquirir um exemplar vai poder adquirir algum no futuro?

Denílson: Basicamente existem dois sistemas de impressão de livros: o offset, que é um sistema antigo, mais caro e utilizado para grandes quantidades e que tem uma excelente qualidade. O sistema atual, que é o digital por demanda, é mais barato e se pode imprimir um livro por vez. Esse sistema tem muito boa qualidade, desde que se utilize maquinário moderno e as cores estejam bem calibradas, além do que não se imprima muitos livros e/ou se imprima num dia e depois no outro, pois existe a chance das cores – capa – saírem com diferentes tonalidades.

No momento, não podemos afirmar nada quanto a uma segunda edição, pois estamos focados nesta edição atual. Entretanto, uma coisa é certa: a possível edição futura seria pelo sistema digital por demanda, pois não temos condições de bancar uma edição como a atual de muitos exemplares. E só aceitaremos uma edição por demanda se a qualidade do produto final for a melhor possível e se os valores de produção compensarem, senão encerraremos com essa edição única!

Jonas Scherer: Existe alguma possibilidade de se fazer Cthulhu, Dagon ou Shub-Niggurath saírem de dentro do livro, quem sabe liberando o caos total na Terra?

Denílson: Quem sabe! inclusive, uma coisa que não falei, e divulgo aqui em primeira mão, é que o livro está cheio de easter eggs, e quem sabe, com a junção desses conhecimentos dispersos, algum portal oculto seja aberto! Inclusive, meu próprio sobrenome não é Ricci e outros que divulguei… mantive em sigilo, só revelo agora:

Denílson T.x.T

Mas, o que seria o T.x.T.?

No livro está a resposta, e quem a descobrir será revelado algo ainda maior!

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