Cada um no Seu Sagrado.

por jonasscherer

Fotografia: Miquéias H. Mügge

Com os protestos religiosos e atentados terroristas dos últimos dias, – todos supostamente desencadeados pela divulgação do filme “Innocence of Muslims” – liberdade de expressão, religiosidade e tolerância formaram a pauta midiática sobre o tópico. O pesquisador e historiador Martin Norberto Dreher, cujo trabalho enfatiza os temas imigração e religião, ajuda a clarificar essa agenda. Tendo-se doutorado em história da igreja, na Alemanha, Martin apresenta um contexto mais amplo para a compreensão das relações entre religião, Oriente e Ocidente.

Entrevista conduzida por e-mail entre 20 e 22 de setembro de 2012.

——————————————— 

Jonas Scherer: O que é uma religião?

Martin: Muitos autores definem religião a partir do verbo “religar”. Após perda de relação com o “divino”, o ser humano busca reaproximar-se e “religar” sua relação com o divino. Pessoalmente, com outros estudiosos, verifico que religião começa com uma experiência numinosa (numen=sagrado), uma experiência com o sagrado. No cristianismo essa experiência é a descoberta de que Jesus ressuscitou, no judaísmo, a experiência feita por Moisés de que um arbusto (sarça) ardia sem se consumir. A partir dessa experiência com o sagrado, há observação acurada, cuidadosa em relação ao que aconteceu, feita pela pessoa que observou o “fenômeno”, o religioso. Religioso vem do verbo latino “religere”, cujo antônimo é “negligere”, que aponta para a pessoa negligente, a pessoa que não observa com cuidado. A religião é, pois, movimento que posteriormente se institucionaliza a partir de uma ou várias experiências religiosas, da qual se tiram consequencias. Da experiência de Moisés, surgiu a religião judaica; da experiência da ressurreição de Jesus, surge o cristianismo; da experiência de Maomé a partir da revelação do anjo, surge o islão…

Jonas Scherer: Não quero induzir, mas, a partir dessa concepção, muitos cientistas, de ontem e de hoje, passaram por experiências religiosas em suas descobertas físicas, químicas, biológicas etc., concorda?

Martin: Não concordo. Pessoalmente, não posso dizer ter passado por experiência religiosa. Nasci e cresci dentro de uma tradição religiosa e nela permaneci, quase que ao natural. Posso dizer que me sinto dentro de uma continuidade de gerações. Sou muito mais o que outros escreveram em mim. Tomemos também como exemplo a Albert Einstein. Era judeu e suas descobertas não questionaram a tradição religiosa herdada. No leito de morte, pediu que sua irmã lhe lesse salmos. Outras pessoas, não necessariamente cientistas, podem dizer da hora e minuto no qual passaram por experiência religiosa, dizendo de sua “conversão”. Agora, conversão é conceito moderno. É só a pessoa moderna que vai falar de conversão, de sua opção por determinada corrente de pensamento ou religião.

Jonas Scherer: Em que tradição religiosa nasceste e cresceste?

Martin: Sempre fiz parte do grupo minoritário luterano. Meus antepassados foram imigrantes alemães chegados ao Rio Grande do Sul a partir de 1825 e a São Paulo a partir de 1868. Trouxeram consigo a herança da Reforma Luterana do século XVI. No Brasil, foram apenas tolerados, pois a religião oficial era o catolicismo romano. Somente com a constituição republicana de 1890 é que tiveram liberdade religiosa.

Jonas Scherer: Houve tolerância em sentido amplo, ou aquela tolerância velada, com penalização social sob pretextos diversos dos religiosos?

Martin: A tolerância era restrita como aquela preconizada por José I, na Áustria, um parente da Imperatriz Leopoldina. A vida religiosa ficava restrita ao culto doméstico, em casas sem forma exterior de templo. Estavam proibidos campanários, sinos, cruzes. Os matrimônios não eram reconhecidos e considerados concubinato, o que permitiu a alguns sacerdotes católico-romanos realizar união de luterano/a casado/o com outro/a luterano/a com cônjuge católico.

Os filhos eram considerados filhos ilegítimos e como tais não tinham direito à herança dos pais. Não podiam ser eleitos deputados provinciais nem imperiais. Não podiam ser sepultados em cemitérios existentes, tendo que criar seus próprios cemitérios. Em caso de matrimônios mistos, os filhos deveriam, obrigatoriamente, ser educados na religião católica. O Brasil era regido no tocante a questões religiosas pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia.

Em 1864 o pastor luterano de São Leopoldo foi preso por estar à frente de um féretro – iam em direção ao cemitério local – usando sua veste talar. O delegado de polícia considerou a veste propaganda religiosa. Por causa desta situação, ainda nos anos posteriores a 1945 – nasci naquele ano -, fui orientado por meus pais a não falar de religião na rua, mesmo que a constituição o permitisse desde 1890.

Jonas Scherer: Por que achas que levou tanto tempo para que os luteranos fossem aceitos socialmente, ao invés de tolerados?

Martin: Na realidade, vivíamos sob o regime do Padroado. O rei português e, depois, o imperador brasileiro, era o chefe da Igreja. Os sacerdotes eram funcionários públicos; cabia-lhes o registro de tudo, inclusive dos imóveis.Os bispos eram escolhidos pelo imperador. A forma de acomodar os luteranos foi a tolerância, pois o Império necessitava de braços livres.

Na medida em que prosperaram economicamente, passaram a ser respeitados. A nível local, tiveram representantes eleitos para as câmaras municipais. Desde 1864, os matrimônios entre luteranos foram reconhecidos.Devemos dizer que, de modo geral, os estados procuraram controlar as populações através da religião de Estado até a Primeira Guerra Mundial.

Jonas Scherer: Hoje ainda temos estados que exercem controle sobre a religião, e conflitos religiosos são constantes, globalmente. Será que isso tem raízes na incapacidade para compreensão da crença alheia ou na mistura de política com religião?

Martin: A questão é bastante complexa. Nos conflitos da Irlanda falava-se de guerra entre protestantes e católicos. Na realidade o conflito era de ordem econômica. Minoria protestante dominava a economia e controlava a maioria católica pobre. Na Turquia houve e há guerra étnica entre turcos muçulmanos e cristãos armênios. O conflito entre árabes e judeus não é de ordem religiosa, mas de ordem política. A criação de um Estado judeu provocou marginalidade de vastas populações árabes muçulmanas e cristãs e luta por restabelecimento do status quo ante. Este conflito foi acirrado pela Guerra Fria: Estados Unidos e aliados lutando contra a União Soviética e apoiando Estado judeu e Estados árabes.

O fundamentalismo religioso que tem sua origem nos EUA do final do século XIX acabou sendo exportado para países de tradição maometana. Enquanto uns lutam pela recristianização do mundo, outros lutam pela reislamização do mundo. Para complicar, ainda existe a briga pelos recursos naturais, diga-se: petróleo. No Iraque de Saddam Hussein, o vice-presidente era cristão. A guerra contra Hussein foi guerra do petróleo, como a guerra do Afeganistão. Após o final da guerra,  muçulmanos passaram a perseguir cristãos no Iraque, por considerá-los representantes dos EUA. Existe, é verdade, também a questão da incompreensão e da intolerância, mas a intolerância foi ativada pelo imperialismo. Lembro que, na Idade Média européia, cristãos, muçulmanos e judeus conseguiram conviver na Peninsula Ibérica.

Jonas Scherer: É pela reislamização do mundo que o embaixador norte-americano Chris Stevens foi morto na Líbia?

Martin: Não. Ele foi vítima de ações de pessoas que não medem as consequências, e que acham que quanto pior, melhor, e que gostam de ver o circo pegar fogo, como o “evangelista” Pat Robertson, nos EUA, cartunistas na Dinamarca, França e Alemanha. A Líbia não é nação fundamentalista. Aparentemente, o atentado na Líbia já estava planejado antes e  é consequência de outras insanidades produzidas pelo Ocidente em relação ao Oriente.

Fundamentalismo não diz respeito apenas à religião. Há xiitas nos partidos políticos e entre jornalistas que fazem da liberdade de expressão e de imprensa um “dogma” que, no fundo, nada mais é que defesa da liberdade de mercado, onde tudo é lícito, inclusive a ridicularização do “sagrado” do outro, desde que aumente a venda e os lucros; ou do corpo do outro, como no caso recente em torno do corpo de princesa inglesa, cuja sogra já foi vítima de “liberdade de imprensa”.

Jonas Scherer: Insanidades produzidas pelo Ocidente em Relação ao oriente?

Sim. No Ocidente atual, deixaram de existir parâmetros. A lógica do Mercado, a divindade pós-moderna, tudo sacrifica sobre seu altar. Suas insanidades são produzidas não só em relação ao Oriente, mas em relação ao próprio Ocidente.

Jonas Scherer: A obra “Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, poderia ser uma dessas insanidades?

Se você ler a obra no Oriente, ela é insanidade e falta de sensibilidade. No Ocidente, a sensibilidade já não conta e aí a obra de Rushdie não causa surpresa; é mais uma obra entre tantas outras. O Ocidente pode dar “força” a Rushdie, mas, quando ele se der mal, o mesmo Ocidente vai lavar as mãos, dizendo que esse é o risco do Mercado. O Ocidente ainda não aprendeu que não pode impor suas regras de mundo individualista a sociedades tribais.

Jonas Scherer: Tu vês alguma perspectiva favorável, menos bélica, para as relações religiosas entre Oriente e Ocidente?

No momento, a situação está bastante difícil. O Ocidente desestabilizou o Oriente. Vai demorar até se chegar a uma estabilidade. Na pós-modernidade, o Estado não sabe mais qual a sua função. Tudo é ditado pelo Mercado. No Ocidente, a própria religião está se adaptando à lógica do  Mercado. É óbvio que existem também pessoas buscando diálogo entre as religiões. Agora, é bom lembrar que não são as relações entre as religiões que são bélicas, bélicas são as relações entre Ocidente e Oriente. O que está sendo queimado é a bandeira dos EUA e não a cruz de Cristo, por exemplo. Lembre-se do que falei anteriormente sobre as consequências da Guerra Fria. Seria importante que tivéssemos menos pessoas dispostas a por lenha na fogueira.

Jonas Scherer: Tem mais alguma coisa que tu gostarias de dizer?

Martin: Até o início da Modernidade, a religião foi a base da sociedade. Tudo era religião – casar, pescar; o mundo era religioso, sagrado e, como tal, respeitado. Nos últimos 500 anos, progressivamente, Estado e Mercado passaram a ser base da sociedade, a religião migrou para a supraestrutura. Se  antes o mundo era religioso, agora o mundo é ateu, mas habitado por crentes.

O Estado buscou valer-se da religião para controlar as pessoas. Na pós-modernidade atual, a base da sociedade é o Mercado e estamos submetidos a sua lógica. Por isso, é fundamental que, ao analisarmos questões como a religião e o que está acontecendo com ela, também verifiquemos as intenções do mercado.

Anúncios