Habitantes de Pedra.

por jonasscherer

Fotografias: Jonas Scherer

Em São João dos Mellos, distrito rural de Júlio de Castilhos, na região Central do Rio Grande do Sul, a paisagem natural chama a atenção pela sua beleza rústica. Nesse local, entre morros e campos, há um acervo incomum, de mais de 200 pedras esculpidas e algumas figuras em madeira, além de um Buda gigante: o Jardim das Esculturas. Desde 2004, o lugar desperta interesse pela sua beleza e originalidade. O escultor Rogério Bertoldo, autor das obras, explica que projeto é esse e conta como surgiu o ponto turístico que atrai visitantes do mundo todo.

Entrevista conduzida pessoalmente em 30 de setembro de 2012, no Jardim das Esculturas, no distrito de São João dos Mellos, Júlio de Castilhos – Rio Grande do Sul.

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Jonas Scherer: O teu interesse pela escultura começou de que forma?

Rogério: O interesse começou de uma hora para a outra, quando eu estava ainda praticando artes marciais. Comecei a fazer um pequeno Buda, em pedra, eu já fazia alguns entalhezinhos, mas há pouco tempo. E aí eu decidi – depois daquele – começar o Jardim. Daí eu pedi licença para a família, um machado, algumas talhadeiras antigas e até facas de mesa; e comecei.

Jonas Scherer: Tu estudaste ou tiveste algum tipo de iniciação à escultura?

Rogério: Nenhuma. Por volta de 2004, comecei a fazer pequenos entalhes e, em 2005 ou 2006, mais ou menos, eu comecei já com monumentos. Quando comecei, foi com monumentos: comecei a fazer a primeira escultura, que foi um leão, e já vieram monumentos. O que financiou toda a minha trajetória.

Jonas Scherer: Que monumentos foram esses?

Rogério: Eu mandei um Sepé Tiaraju em 2005, um Sepé Tiaraju de 1,80 m, em arenito, para Brasília. O cara demorou três dias para levar um caminhãozinho lá, para uma reserva ecológica. O cara trabalhava na Esplanada Dos Ministérios. Foi a primeira.

Jonas Scherer: E, a partir daí, tu passaste a financiar o Jardim das Esculturas com esse tipo de trabalho?

Rogério: Sim. Daquela época, mesmo começando, jardim não tinha. Só tinha uma escultura apenas, era um leão. Aí eu comecei com as vendas. Foi uma coisa muito incrível porque comecei a fazer monumentos antes de começar o Jardim. Isso aí em curto prazo. Em menos de um ano já tinha três, quatro, cinco monumentos. E daí eu trazia pedras. Eu mesmo tirava as pedras. Era uma época difícil; era um serviço meio estranho, arrancar pedras na base de alavanca. Mas isso tudo gerava combustível para gerar o Jardim.

Jonas Scherer: E por que tu esculpes?

Rogério: Olha, eu esculpo, primeiramente, porque passei, vamos dizer assim, a um processo além de gostar. Eu transcendi o gostar de praticar a escultura. É uma coisa muito forte. É maior do que simplesmente fazer uma escultura.

Jonas Scherer: Muitos elementos das temáticas do Jardim tratam de espiritualidade e do relacionamento do homem com a natureza. Podes falar mais sobre essa temática?

Rogério: Eu sempre me interessei pelo orientalismo, a ioga, as práticas de retiros que eu fazia desde adolescente, pela faixa dos 16 anos. Através da literatura, conheci métodos de meditação, até do zen budismo, e depois, mais tarde, da filosofia da ioga. Aí eu comecei a praticar isso, sem conhecer mestres, nada; apenas pela minha intuição e lendo alguma coisa. Aí comecei a fazer, então, homenagem a esse tipo de prática, e ela (a temática) tem sim uma ligação muito forte com a parte interna e com uma parte que está para trás e que eu tenho trazido para cá. Com isso, se faz uma atmosfera chamada consciencial, uma forma de eu passar para as pessoas que ela não é só aquilo – matéria –, ela é uma continuidade, uma consciência, um veículo inteligente, que segue.

Jonas Scherer: Há muitos animais esculpidos. Por quê?

Rogério: Eu quis fazer uma homenagem para os animais que existiam e existem aqui. Agora, com o desmatamento, com todos os processos de lavouras de soja, essa coisa toda – derrubou o mato, assoreou rios. Então eu fiz pequenas lembranças dos animais. Não sei se eles desaparecerão por definitivo, mas, daí, para as pessoas estudarem. Uma pessoa que quer estudar um animal, como é que era, que existiu aqui. Entre eles também vai ter o lobo-guará; tem a seriema; tem várias espécies de lagartos; o bugio, que existia aqui; o famoso gavião, o carancho, que não se vê mais, e muitos outros. Uma maneira de deixar algo mais local.

Mas o meu interesse, além disso, seria nesse processo consciencial, que é muito mais forte. Através dele as coisas seriam diferentes, até para os animais.

Jonas Scherer: Em que consiste o projeto das mil faces, como ele está?

Rogério: Esse projeto faz tempo que esta no meu mental. Ele vai ter dois hectares e meio de área, ou mais. O primeiro sentido que ele representa é o de que somos diferentes. Mil faces projetadas em pedra, e essas mil vão ser diferentes uma da outra, representando que somos diferentes um do outro, e é na diferença que nós trocamos experiências: um sabe alguma coisa e passa para você; eu sei de alguma coisa e a passo para você. Mas isso é o primeiro sentido.

Tem muito a ver com o processo aqui, de trazer desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida, futuramente. Transformar isso aqui, um simples povoado, em uma vila, e atrair, também, investidores.

Jonas Scherer: Quantas esculturas tem o Jardim?

Rogério: Já passam de 200.

Jonas Scherer: Tem algum financiamento externo além daquele que vem da venda de esculturas?

Rogério: Nenhum. Somente a venda de obras, de monumentos, de bustos, que financiam tudo isso aí.

Jonas Scherer: Alguém já ofereceu algum benefício ou vantagem para tocar esse projeto?

Rogério: Não. Por enquanto, não. Há uma ideia que esta sendo montada, uma maquete que estou fazendo. Mas, se não houver nenhum investimento, tocarei o projeto por conta própria.

Jonas Scherer: Tu recebeste convites para levar esse projeto para outras regiões do Estado, mas declinaste, preferindo mantê-lo aqui. Por qual motivo, além de desenvolver o turismo?

Rogério: É um motivo existencial. É um processo em que você nasce em um lugar, em um ambiente, e você tem que florescer ali. É claro que você vai usar sempre o discernimento, se aquele ambiente é para você. Mas esse ambiente, fazendo um autodiscernimento, é um ambiente em que eu nasci e vivi, e eu tenho de fazer isso aqui. Muita coisa boa vai nascer disso, para trazer uma nova era econômica, vamos dizer assim, para este lugar. Muita coisa vai mudar. E, também, outras coisas, de nível consciencial, que sempre falo para os visitantes. É uma proposta que eu vou deixar. Ficará um estigma aqui, um estigma que vai ser secular, tenho certeza disso.

Jonas Scherer: Como é o processo criativo das esculturas?

Rogério: É uma coisa interna, que eu olho para uma rocha e já vejo a figura dentro. E a criatividade aparece naquele momento. Ela se manifesta naquele momento. E o machado que eu usava era para, o mais rápido possível, tirar o que não servia. Então aqueles blocos todos saiam lá na base de pancadas. Eu consumia 25 machados por ano. Chegava – até contabilizei, a quem interessar – a dar mais de dez mil pancadas por dia, entre pequenas, médias e grandes pancadas.

É tudo meio espontâneo, meio rápido. É tudo sem planos, eu não fiz o Jardim pegando um croqui, um mapa. Não fiz projeto nenhum. Com o advento do martelete, do rompedor, o machado ficou um pouco de lado. Mas eu ainda uso o machado. O martelete veio por causa da pedra-sabão, que vem de Minas Gerais, uma pedra muito forte. Eu tentei usar o machado na pedra-sabão: a cada três pancadas que eu dava, a pedra devolvia duas para mim. Daí não tinha como.

Então eu encomendei as peças, pois só tinha 30 dias para entregar o monumento. Daí veio o rompedor, o martelete, que é um material que é para destruir, usado na construção civil, para abrir buracos em paredes, por exemplo. Então eu transformei em uma ferramenta que eu apliquei na pedra de arenito. Está tendo sucesso, acelerando mais.

Jonas Scherer: E o que tu achas que divulga o jardim, fazendo os visitantes chegarem até aqui?

Rogério: Em uma região como essa, praticamente desconhecida, um lugar pequeno, de agricultores, pessoas simples, em meio ao catolicismo e seus costumes antigos, até certo ponto primitivos, eu apareci e ainda coloquei um restaurante vegetariano. Aqui as pessoas cultivam a cultura italiana e também as tradições gaúchas. Isso desperta curiosidade.

E uma pessoa só trabalhando também, começando muito rusticamente, e fazendo em uma velocidade tão acelerada, talvez, eu acredito que seja por isso e mais o processo de formar isso aqui em cima de uma concepção própria, sem dependência, sem escutar os padrões previamente estabelecidos. Eu não escutei nada disso. Eu acreditei em mim, apenas. E a crença – não sei se a palavra correta seria crença –, uma vontade enorme e autoconfiança, isso é passado também para as pessoas: aquele que realmente quer as coisas, que acredita naquilo internamente, ele faz coisas extraordinárias. E acho que é por isso que as pessoas até repetem a visita. Há pessoas que vieram até dez vezes aqui.

Jonas Scherer: O que está disponível aqui no Jardim para os visitantes?

Rogério: O pessoal vem visitar o Jardim, um espaço de contemplação, e passa a acessar os serviços oferecidos aqui: trilhas ecológicas, com guias formados, passando por cachoeiras; um restaurante vegetariano, que é aqui no nosso espaço, e um restaurante convencional que está mais aqui na vila, a uns 300 m. Há festas que são feitas, em uma associação criada para o turismo, culturais, com artistas de fora, cantores italianos, grupos de percussão, artistas locais. Também oferecem artesanato e produtos da cultura local. Ainda é algo simples, pequeno, mas já está ficando muito bom.

Jonas Scherer: Quais foram as atividades que tu desenvolveste ao longo da tua vida?

Rogério: Eu era agricultor, que plantava tabaco, essas coisas todas. E praticava artes marciais. Na verdade, eu fui no colégio, não aguentei muito no colégio, aguentei até a sétima do antigo ginásio, o Ensino Fundamental hoje. E aí migrei para as artes marciais. Tive vários estilos. Fui faixa preta em alguns estilos. Fiquei mais ou menos 17 anos envolvido como professor. Mas fazia a prática da agricultura também, não se dava autossustentabilidade ali.

Nesse intervalo, eu fazia outras práticas, também. Muito interessante isso. Eu já trabalhava com esse processo naquela época e não sabia o que ia acontecer depois. Eu era uma pessoa que preparou o corpo, com essas artes marciais, para que fosse utilizado para a escultura, para manejar o machado. Essa foi minha preparação. Essas eram as coisas que eu fazia.

Jonas Scherer: Como tu manténs as esculturas conservadas, já que estão expostas ao ar livre?

Rogério: A gente passou um impermeabilizante, de pedras. Elas estão aguentando bem, por enquanto. E eu digo uma coisa: eu vou manter enquanto eu estiver, vamos dizer assim, encarnado aqui. Depois, vão ter que trabalhar para mantê-las. Vou dar muito trabalho para eles, manter isso tudo.

Jonas Scherer: E o que falta para impulsionar o Jardim das Esculturas?

Rogério: Divulgação. Talvez acessos melhores aqui. Talvez um asfalto ligando São João a Júlio de Castilhos e Nova Palma. Seria um salto. Precisamos, antes disso, ter infraestrutura. Nós não temos hotéis aqui. Tem gente que acha que temos redes de hotéis aqui; que temos pousadas. Mas nós estamos na nossa capacidade agora, recebendo a quantia de pessoas certa para esse momento.  Vêm pessoas de muito longe: italianos, poloneses, chineses, mexicanos, muitos norte americanos, paraguaios, argentinos – até estou aprendendo inglês para explicar as coisas da minha forma. Fabriciano Gomes, o escultor, também esteve aqui.

Está indo longe.Imagine quando isso engrossar. Eu acredito mesmo que, talvez, o povo daqui não tenha recursos para entrar com essa estrutura aqui, mas virão empreendedores de fora.

Jonas Scherer: Tem mais alguma coisa que tu queiras dizer?

Rogério: Eu agradeço a sua boa vontade para vir aqui me ouvir. Acho que o que está sendo feito aqui é algo que vai ressoar muito longe. Vai transformar todo este lugar aqui, talvez em médio prazo. Vai trazer benefícios. Esse é o meu verdadeiro salário: trazer benefício para as pessoas; dar oportunidades diferentes. Hoje temos pessoas usando os serviços aqui, como trilhas, essas coisas todas. Isso é o começo da grande erupção.

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