Vulcões.

por jonasscherer

Fotografia: DougalEARTH

Chegar bem perto de vulcões que parecem ansiosos por cuspir rios de lava derretida pode não ser o sonho de uma geração, mas é uma experiência prazenteira para aqueles que admiram as forças da Terra. Dougal Alexander Jerram, um geólogo britânico, pesquisador e apresentador de programas em diversas mídias, é parte desse grupo. Ele tem sido visto ao lado de vulcões, explicando o seu funcionamento, e tem participado como especialista em programas na BBC, Discovery Channel, History Channel, National Geographic e Channel 4. Diretor do site de ciências da Terra DougalEARTH, Dougal aceitou despejar um pouco do seu conhecimento vulcânico nesta entrevista.

Entrevista elaborada e traduzida por jonasscherer. Conduzida por e-mail entre 13 e 24 de outubro de 2012.

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Jonas Scherer: Por que as pessoas te chamam de Dr. Vulcão?

Dougal: Durante a crise das cinzas vulcânicas da Islândia, que fechou todo o espaço aéreo da Europa, eu fui convidado para participar de um programa popular de TV chamado “The One Show”, na BBC, para explicar sobre o vulcão. Eles me chamaram de Dr. Vulcão e eu utilizei um modelo de vulcão e amostras geológicas para explicar por que as erupções vulcânicas estavam causando aquele problema. O nome Dr. Vulcão pegou e agora é o meu apelido.

Jonas Scherer: De onde veio o seu interesse por vulcões?

Dougal: O interesse por vulcões vem dos tempos da infância, quando eu estava sempre interessado em expedições, montanhas e ar livre. Acho que o real interesse em tudo o que é vulcânico veio do meu primeiro curso na Cardiff University, onde fui inspirado pelo Dr. Tim Druitt, o nosso vulcanólogo à época.

Jonas Scherer: É necessário, para estudar vulcões, chegar perto de lava e de outros elementos potencialmente danosos?

Dougal: Não necessariamente. Muitas pessoas trabalham em depósitos vulcânicos muito antigos, dos primórdios da história da Terra. Ainda assim, é bom ter conhecimento dos sistemas de vulcões ativos modernos, para ajudar a interpretar a origem dessas rochas mais antigas. Eu faço um pouco de ambos, moderno e antigo.

Jonas Scherer: Na mídia, as pessoas falam bastante sobre pesquisadores destemidos que chegam bem perto de vulcões, lava derretida e coisas que parecem a morte certa. Tu podes me falar mais sobre esse comportamento?

Dougal:  Na maior parte do tempo, as pessoas se aproximam de vulcões ativos que são relativamente seguros, o Stromboli, por exemplo. Mas, como em todos os processos extremos da Terra, chegar perto demais pode ser perigoso e algumas pessoas assumem mais riscos, como os vulcanólogos franceses que morreram em um fluxo piroclástico no Monte Unzen.

Jonas Scherer: Há alguma outra forma de investigar vulcões com riscos menores e resultados similares?

Dougal: Podemos investigar até os vulcões mais perigosos, atualmente, com técnicas de sensoriamento remoto.

Jonas Scherer: Nesse caso, alcançar áreas perigosas de vulcões é mais um estilo pessoal de pesquisa do que qualquer outra coisa?

Dougal: De certa forma, sim. Embora você continue tendo de levar equipamento até os vulcões, para monitoramento.

Jonas Scherer: Às vezes podemos te ver muito perto de vulcões ativos, perto o suficiente para fazer parte de uma eventual erupção. Como é isso?

Dougal: É fantástico chegar tão perto de uma das forças primordiais da Terra. Sempre me excita  e é sempre diferente.

Jonas Scherer: O que acontece antes de uma erupção vulcânica?

Dougal: Antes de uma erupção, o chão pode se dilatar e pequenos tremores sísmicos podem ser monitorados. Pode haver um aumento de gases. Depois de uma erupção, você pode ter a expulsão em massa de produtos da erupção, se for um vulcão explosivo, como blocos e cinzas em fluxos de escombros.

Jonas Scherer: É possível prever erupções vulcânicas?

Dougal: Sim, estamos ficando bons em previsões quando os vulcões que são bem monitorados têm altas chances de irromper. Temos menos precisão sobre o quão grande a erupção será e por quanto tempo durará. Para melhorar isso, precisamos observar o comportamento pretérito do vulcão.

Jonas Scherer: O que é isso que chamam de supervulcão?

Dougal: Supervulcões são os que têm capacidade para irromper, digamos, 1.000 km3 de material ou mais.

Jonas Scherer: Isso é muito material! Tu sabes quando foi a última erupção de um desses?

Dougal: Os dois mais recentes são o Taupo, em Nova Zelândia, há 26,5 mil anos, e Toba, na Indonésia, há 74 mil anos.

Jonas Scherer: Tu já estudaste esse tipo de vulcão na DougalEARTH?

Dougal: Sim, eu estudo vulcões que causam o que é conhecido como província basáltica, que é efusão massiva de lava que ocorre em momentos cruciais na história da Terra, como as Traps de Deccan e as Traps Siberianas.

Jonas Scherer:  Quais os tópicos de pesquisa mais recentes na DougalEARTH?

Dougal: Os estudos atuais versam sobre margens vulcânicas passivas e províncias basálticas que irrompem quando os continentes se dividem, e, também, sobre uma observação dos produtos irrompidos por vulcões modernos como uma janela para o sistema de encanamento de magma de um vulcão.

Jonas Scherer: Para os curiosos: como se faz para se tornar um vulcanólogo?

Dougal: A fonte usual para se tornar um vulcanólogo é uma graduação em geologia e depois um doutorado em assuntos relacionados a temas vulcânicos. Depois arranjar um trabalho direto em um observatório ou então continuar pesquisando vulcões na universidade.

É possível se voluntariar para diversos observatórios mundo afora e adentrar um pouco o tema dessa forma.

Jonas Scherer: Tem algo mais que tu gostarias de dizer?

Dougal: A Terra é um playground maravilhoso. Em nossas vidas atarefadas, nós esquecemos frequentemente de aproveitá-la pela sua natureza. Se você quiser chegar mais perto de uma das grandes forças da Terra, por que não saber mais sobre vulcões… ou melhor, ir visitar um.

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