Um Breve Enfoque Pragmático da Entrevista Jornalística: Definição Formal.

por jonasscherer

1. Uma definição limitada

Em grande parte dos casos, as definições de termos e de suas características tendem a pretender a posse de atemporalidade, no sentido de que sua aplicação tenha validade para todos os casos do passado, presente e futuro – uma herança de mais de dois mil e quinhentos anos nas práticas de conceituação, delimitação, definição etc.. Neste estudo, tal pretensão é descartada, visto que o trabalho desenvolvido é o de investigação sobre como pode ser definida uma entrevista em termos de sua forma, utilizando como base a observação de um conjunto de peças nomeadas como “entrevista” desde 1823 até hoje, além das considerações de uma série extensa de autores contemporâneos que, direta ou indiretamente, se ocuparam do mesmo tema. Assim, o que se faz aqui é observar, encontrar elementos comuns e agrupá-los, chegando, desta feita, a uma definição formal de entrevista de acordo com as práticas desempenhadas ao longo do tempo, enfatizando aquelas hodiernas.

Para tanto, coletei um corpus de mil entrevistas que, como dito, compreende o período de 1823 até 2012. São peças compostas em diversos países – oito, ao todo – espalhados pelo modelo geográfico dos cinco continentes. Objetivando identificar elementos formais comuns a todas essas entrevistas, elaborei um quadro, exposto ao final desta peça, que contém as seguintes características – que levam em conta as partes constituintes da entrevista, o local, a interação conversacional e o período temporal –   para identificação das partes constituintes das entrevistas:

  • Apenas um entrevistador;
  • mais de um entrevistador;
  • apenas um entrevistado;
  • mais de um entrevistado;
  • primeira metade do século XIX;
  • segunda metade do século XIX;
  • primeira metade do século XX;
  • segunda metade do século XX;
  • século XXI (até novembro de 2012);
  • continente asiático;
  • continente africano;
  • continente americano;
  • continente europeu;
  • continente oceânico;
  • conduzida por telefone;
  • conduzida pessoalmente;
  • conduzida por meios de comunicação vinculados à internet;
  • conduzida por rádio;
  • perguntas e respostas com vínculo conversacional aparente;
  • perguntas e respostas sem vínculo conversacional aparente,
  • entrevistador conduz a sessão;
  • entrevistado conduz a sessão.

Os itens 19 e 20 mencionam vínculo conversacional aparente. Esse vínculo conversacional aparente diz respeito à facilidade, ou não, de se perceber que as perguntas eram elaboradas mais ou menos em relação às respostas, indicando que ocorria uma conversação durante a sessão de entrevista, e não a simples aplicação de um questionário – continuidade semântica. Os itens 20 e 21 são referentes à averiguação de qual dos participantes da entrevista conduziu, de fato, a mesma.

O item 2 apresenta:

  • O entendimento ao qual cheguei acerca da forma de uma entrevista tal qual é perceptível hoje, pela observação das entrevistas desenvolvidas cotidianamente entre as últimas três décadas do século XX e do presente século, em diversas áreas e, também, sobre o produto de investigação acadêmica sobre o tema, por parte de outros autores, igualmente de variados ramos de atuação;

2. Caracterização geral do termo “entrevista” quanto à forma

Não é preciso grande gênio intuitivo para, sem ter de pensar muito, chegar a uma definição aproximada, se não exata, do que seja uma entrevista. O mesmo se pode dizer acerca do conhecimento dos diversos usos que tem essa prática: de uma entrevista seletiva para contratação de um empregado ao empenho jornalístico para a elaboração de um perfil.

A entrevista, em sua acepção geral mais comum e difundida, é maneira de extração de informações na qual um ou mais indivíduos (entrevistadores) buscam obter dados de um ou mais indivíduos (entrevistados) por meio de uma conversa fundamentada nas perguntas que são elaboradas prioritariamente pelo(s) entrevistador(es). Dessa definição genérica, o único característico que não constitui ponto pacífico, pelo menos no campo bibliográfico, é o número de indivíduos. De um modo abrangente, quem fala sobre entrevista fala, inevitavelmente, sobre pelo menos uma pessoa conversando, baseada em perguntas, com outra pessoa, que as responde – donde não é possível uma pessoa entrevistar a si mesma.

Sobre o declarado no parágrafo anterior, é fácil encontrar prova: Kvale e Brinkman (2008), conhecidos autores norte-americanos na área de metodologia científica, especificamente análise qualitativa de texto, imagem e som, compreendem a entrevista como método de extração de informações através de uma conversa estruturada sobre perguntas do entrevistador e respostas do entrevistado. O mesmo é encontrado em Gaskell e Bauer (2004), Bardin (1977), Cahill (1988), Duarte e Barros (1998) e Franco (2003), todos autores muito bem conhecidos na área de análise qualitativa e quantitativa de conteúdo. E essa definição de entrevista vai ainda mais longe, pois se repete em um sem-número de manuais sobre entrevista de candidatos a vagas de emprego, como os de Yate (2008) ou DeLuca e DeLuca (2001), até alcançar o jornalismo, passando por Lage (2001), Caputo (2006) e Erbolato (1991), para ficarmos apenas no jornalismo brasileiro.

Muito embora não tenhamos encontrado referências abundantes sobre entrevistas com mais de uma pessoa figurando como entrevistador ou como entrevistado, basta recorrer a exemplos empíricos consagrados para, sem possibilidade de contestação válida, afirmarmos que diversas pessoas podem entrevistar uma só – é o óbvio caso de uma entrevista coletiva; bem como diversas pessoas podem ser entrevistadas por uma só, no comum exemplo de uma acareação, principalmente em processos administrativos. A entrevista no processo de acareamento é claramente abordada em textos e manuais legais, como o de Rodrigues (2010). Na seara jornalística, temos exemplos como a entrevista que Stela Caputo (2006) fez com Dilma Roussef e José Eduardo Dutra e, também, a realizada com Eduardo Moreira e Inês Peixoto pela mesma entrevistadora, na mesma obra.

Não é redundância sintetizarmos as características fundamentais da entrevista: (1) é uma conversa; (2) é baseada essencialmente em perguntas; (3) tem ao menos um sujeito ativo no pólo das perguntas e ao menos um sujeito passivo no pólo das respostas, não o contrário. Antes de mais, para evitar confusão, salientamos que o sentido do termo “conversa”, neste estudo, é tomado pelo popular sentido dicionarístico que pode ser encontrado, por exemplo, no Dicionário Eletrônico Houaiss, versão 3.0.1 (2010): “troca de palavras, de ideias entre duas ou mais pessoas sobre assunto vago ou específico”.

Ressalte-se que essa concepção formal de entrevista não é original. Pela sua simplicidade e obviedade, muitos outros autores já chegaram a conclusões similares, partindo de observações empíricas, como Gil (1999), Gressler (2003), Rosa e Arnoldi (2006), Gillham (2000) e Motta (1999).

A partir daí, é possível separar do conjunto “entrevista”, quanto à forma, por meio de simples raciocínios fundamentados no exposto até então, outros modos de extração de informação que envolvam perguntas e respostas. O famoso questionário, que consiste na formulação de uma série de perguntas elaboradas anteriormente, a serem respondidas sem interação entre o questionador e o questionado (HILL e HILL, 2005), por exemplo, nada tem a ver com entrevista, em sentido formal, porque não é uma conversa. De maneira similar, muitas entrevistas ditas estruturadas também não passam de questionários que são respondidos oralmente, mas sem a mínima interação conversacional. Já as entrevistas abertas e as semi-estruturadas, por não dispensarem a interação conversacional, são, de fato, entrevistas.

Tais características são identificáveis em produtos de interações entre pessoas, reduzidos à forma escrita, sonora ou audiovisual, pelo menos dede 1823 – com a famigerada entrevista de José Bonifácio – , em todos os continentes. Na grande maioria dos casos observados, o entrevistador conduziu a conversação, embora algumas personalidades mais efusivas, digamos, demonstraram em dez casos uma tendência a monopolizar a conversa e transformar o entrevistador em entrevistado. É também notável o fato de que, em algumas entrevistas reduzidas à forma escrita, não é possível saber se houve uma conversação ou se, pelo contrário, apenas um questionário foi aplicado, demonstrando que, em alguns casos, uma entrevista pode ser conduzida de maneira a produzir resultados similares aos de um questionário, requerendo, então, uma análise posterior mais detalhada sobre a diferenciação de entrevista e questionário em casos limítrofes. Igualmente evidente é a mudança nos suportes comunicativos desde 1823 até hoje: com o surgimento de novas tecnologias, é de se esperar que essas mesmas passem a ser utilizadas como veículos conversacionais, de maneira que o tradicional encontro frontal e pessoal entre o entrevistador e o entrevistado pode facilmente ser substituído por conferências digitais a distância, ainda que, nos casos em tela, tenha prevalecido o encontro pessoal das partes envolvidas.

No entanto, conhecer somente a forma que caracteriza a entrevista não permite que distingamos uma entrevista de algo que não seja uma entrevista. É como tentar distinguir uma laranja feita de plástico de uma laranja fruto de uma laranjeira. Não é só uma questão de forma… Todavia, a questão do “conteúdo” de uma entrevista será abordada em futura pesquisa, pois exige trabalho muito superior e mais extenso do que o aqui empreendido, caso seja o intuito alcançar resultado satisfatório.

Referências Bibliográficas

ALTMAN, Fábio (org.). A Arte da Entrevista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.

BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Persona, 1977.

BAUER, Martin, GASKELL, George e ALLUM, Nicholas. Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento. Evitando confusões. In: BAUER, Martin e

CAHILL, D. J. When to use Qualitative Methods: how about at the midpoint? Marketing News, Chicago, IL, v.32, n.1, p.15-17, jan. 1998.

CAPUTO, Stela Guedes. Sobre entrevistas: Teoria, Prática e experiências. Petrópolis: Vozes, 2006.

DeLuca, Matthew. DeLuca, Nanette. More Best Answers to the 201 Most Frequently Asked Interview Questions. Columbus-USA: McGraw-Hill, 2001.

DUARTE,J.; BARROS,A. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. SãoPaulo: Atlas, 2006

ERBOLATO, Mário L.. Técnicas de Codificação em Jornalismo: redação, captação e edição no jornal diário. São Paulo: Ática, 1991.

FRANCO, Maria Laura Puglisi Barbosa. Análise de conteúdo. Brasília: Plano, 2003.

GASKELL, George (orgs.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Um manual prático. Petrópolis. Vozes, 2004 (3ª. ed.), p. 17-36.

GHIGLIONE, R.; MATALON, B.. O Inquérito. Teoria e Prática. Oeiras: Celta Editora, 1992.

GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

GILLHAM, Bill. The research interview. London: Continuum, 2000.

GRESSLER, Lori Alice. Introdução à pesquisa: projetos e relatórios. São Paulo: Loyola, 2003.

HILL, M.; HILL, A.. Investigação Por Questionário. Lisboa: Edições Sílabo, 2005.

Kvale & Brinkman. 2008. InterViews, 2nd Edition. Thousand Oaks: SAGE. ISBN 978-0-7619-2542-2

LAGE, Nilson. A Reportagem: Teoria e Técnica de Entrevista e Pesquisa Jornalística. Rio de Janeiro. Record: 2001.

MATTAR, F.N. Pesquisa de Marketing: metodologia, planejamento, execução e análise. São Paulo: Atlas, 1994.

MOTTA, Paulo Cesar. Serviços: pesquisando a satisfação do consumidor. Rio de Janeiro: Imprinta Express, 1999.

RODRIGUES, Rodrigo Costa. Técnica de entrevista e interrogatório para o processo administrativo disciplinar. Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2583, 28 jul. 2010 . Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/17060&gt;. Acesso em: 19 set. 2012.

ROSA, Maria V. de F. P. do C; ARNOLDI, Marlene G. C.  A entrevista na pesquisa qualitativa: mecanismos para validação de resultados. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

YATE, Martin. Knock ‘em Dead, 2008: The Ultimate Job Search Guide (Knock ‘em Dead: The Ultimate Job-Seekers’ Handbook). AVON-USA: Adams Media, 2008.

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