Pesquisa Independente Subsiste.

por jonasscherer

Tulio Baars Meira

Um adolescente de 16 anos, brasileiro de Santa Catarina, elabora uma ideia simples e, em pouco tempo, consegue apoio da Nasa para investigar as interações Sol-Terra na anomalia magnética do Atlântico Sul. Conheça um pouco da história de Tulio Baars Meira, o estudante que opera uma estação de radiotelescopia no Programa ALEXA de Radioexploração Espacial.

Entrevista conduzida por Skype no dia 27 de fevereiro de 2013.

———————————————

 

Jonas Scherer: Como foi essa tua história com a Nasa e Stanford?

Tulio: Foi com a Nasa (National Aeronautics and Space Administration), na verdade. Sendo detalhista, o contato foi com o Sara (Service and Advice for Research and Analysis), da Nasa. Como eles têm parceria, conseguiram os equipamentos para mim, aí o projeto do Solar Research Center, de Stanford, me doou pelo Sara outros equipamentos. No dia 10 de dezembro de 2012 –  esse dia ficou marcado – eu estava olhando o céu noturno, como costumo fazer em noites claras e vi um ponto luminoso que não piscava e se movia rapidamente pelo céu. Fui correndo conferir no Stellarium, um software de simulação de céu. Aí descobri que era o Hubble, e vê-lo ali, tão “perto”, e lembrando das imagens que ele fazia, eu comecei a pesquisar um pouco naquele mesmo dia. Eu tinha uma lista de limitações dele que eram solucionadas pela radioastronomia e uns dois dias antes eu tinha recebido meu certificado. Tinha feito uma capacitação em magnetismo terrestre pelo Observatório Nacional, EaD,e tínhamos focado na anomalia magnética do Atlântico Sul (Amas) aí eu juntei: limitação do ótico + localização em que eu estava + Amas + radioastronomia… Bolei uma ideia mental, tive uma ideia tosca e fui enviar a minha ideia para a Nasa. Consegui contato com eles através de uma antiga lista de e-mails e aí você já imagina, né? Enviei o e-mail para eles em 12 de dezembro de 2012, quarta-feira. No dia 16/12, domingo, eu tinha um código de rastreamento do radiotelescópio. O de Stanford foi em janeiro, mas eu estava bem mais ligado já. Foi mais tranquilo para conseguir.

Jonas Scherer: Foi muito rápido, o que tu dirias que chamou a atenção deles?

Tulio: Difícil… até porque, como vim a descobrir depois, tenta-se, desde 1970, estudar isso – as interações sol-terra na AMAS – só que poucos estudos apresentaram sucesso e nenhum querendo estudar numa faixa: faixa decamétrica de 20MHz, e é nessa que centralizarei meus estudos. Aqui no Brasil ou se estuda com Ionossondas em VLF – meus equipamentos cobrem VLF-LF até 80KHz –  ou com micro-ondas na faixa dos GHz. Acho que foi essa vontade de estudar utilizando uma faixa inédita e talvez minha iniciativa, já nesta idade, mas é difícil afirmar.

Jonas Scherer: Eu suponho que tu estejas cursando o Ensino Médio, correto?

Tulio: Iniciei o 3º ano há duas semanas, mas tenho algumas capacitações… mas eles nem ficaram sabendo, creio eu.

Jonas Scherer: Então, com um e-mail e a descrição do teu projeto, o apoio foi conseguido?

Tulio: Mais ou menos. Eu estava bem perdido. Foram me direcionando lá dentro, indicando com quem e como falar. Depois de uma tarde de e-mails, aí que a coisa tomou forma.

Jonas Scherer: Havia alguém daqui do Brasil te ajudando?

Tulio: Nope. Ninguém. Para falar a verdade, nem minha mãe sabia disso. Foi às escuras.

Jonas Scherer: E tu vais colaborar com a Nasa?

Tulio: A exigência deles é que eu disponibilize meus dados livremente para qualquer um e envie para eles também.

Jonas Scherer: Qual a relevância da tua pesquisa?

Tulio: Grande. É que, assim, qualquer aparelho eletrônico e de transmissão de energia está vulnerável a flares de classe X, os mais fortes satélites, então, nem se fala. Minha pesquisa vai ajudar a entender melhor como isso se dá aqui na região da anomalia, isso é externo, digamos. Meu objetivo pessoal é estabelecer alguma teoria, modelo científico, que correlacione perturbações na ionosfera com flares solares

Jonas Scherer: Certo. Eu notei que tu tiveste alguns apoiadores, principalmente pelo site catarse.me… Tem algum tipo de apoio além desse?

Tulio: Tem da LiHS (liga Humanista Secular do Brasil) e da Vibroacustica. Ainda estou preparando o marketing da última.

Jonas Scherer: Tu ganhas alguma coisa para desenvolver esse projeto?

Tulio: Nada. Até agora desembolsei R$ 700 de economias. Só gastos (risadas), até chegar o patrocínio da Vibroacustica: aí pude pagar as dívidas do projeto.

Jonas Scherer: Então o apoio principal veio da NASA, das pessoas que fizeram doações no site catarse.me, da LiHS e da Vibrocaustica?

Tulio: isso!

Jonas Scherer: Tu chegaste a falar com alguma instituição de pesquisa brasileira?

Tulio: Sim, sem resposta alguma. CNPq, MCTI, AEB, INPE, Planalto… O MCTI me respondeu dizendo para entrar em contato com o Ministério de Minas e Energia e o de Comunicações. Os outros nem a dignidade de responder tiveram

Jonas Scherer: Tem mais alguém trabalhando contigo atualmente?

Tulio: Ninguém. Meus colegas estão bem fora. Participação zero.

Jonas Scherer: E em que estágio está o projeto?

Tulio: Hoje quero iniciar as leituras de SID Ionosfera e quero montar a antena principal até dia 15 de março.

Jonas Scherer: Já tens um laboratório completo, então?

Tulio: mais ou menos. falta bastante coisa. Mas dá para operar o básico

Jonas Scherer: O que falta?

Tulio: Computadores, monitores, nobreak.

Jonas Scherer: Tem mais alguma coisa que tu gostarias de dizer?

Tulio: Sim. Que eu acredito que o que falta aos jovens de hoje é iniciativa, é colaborar, é não fugir de responsabilidades e nunca, em hipótese alguma, ficar nas costas dos outros só para ter o nome lá. Até hoje eu sempre fui o único a fazer as coisas e se mexer para fazer direito: só que o meu empenho, em certos momentos, depende da boa vontade do outro, e é essa que acredito ser minha maior limitação hoje, tirando maturidade e conhecimento, mas as últimas vêm com o tempo

Anúncios