Lições da Guarda Civil Municipal de São Leopoldo: “Vai Tomar no Cu!”

por jonasscherer

Os protestos recorrentes nos últimos dois meses levantaram uma questão que ninguém percebeu: existe alguém, no País, treinado para o controle de multidões? Caso pensemos como o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, a resposta é: não há um manual para controle de protestos que descambam para ações mais vigorosas. E, caso pensemos como a PM de São Paulo, o manual é dar porrada. Em se tratando da Guarda Civil Municipal de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, a palavra manual pode até ser desconhecida, mas a boca suja poderia bem ser parte da estratégia de controle de multidões da precitada guarda, como o vídeo ao final deste post mostra.

Contudo, o secretário de Segurança do RJ e vários outros secretários e altos cargos da área em todo o País, sem esquecer da prestigiosa Guarda Municipal de São Leopoldo, desconhecem o fato de que existe pelo menos um manual sobre como agir em caso de multidões indignadas. A publicação do exército norte-americano nomeada Civil Disturbance Operations, acessível na biblioteca digital do General Dennis J. Reimer, do exército dos Estados Unidos ou, em um link direto, aqui, trata exatamente desse tema. É claro que a delicadeza do exército, em alguns momentos do manual, sugere que seja OK matar manifestantes violentos, mas deixa uma coisa bem clara: ceder a provocações verbais e gestuais da multidão é burrice. Essa informação é tornada clara na página 1-9 do documento, editado em 2005:

VERBAL ABUSE1-40. In almost every instance of a civil disturbance or riot, verbal abuse will be an aggressive tool. Obscene language, racial remarks, taunts, ridicules, and jeers should always be expected. It is apparent that the purpose for using verbal abuse is to anger, demoralize, and provoke a physical response. Undisciplined, untrained soldiers who face such an attack could cause the situation to escalate. Just one provoked action of a soldier could be interpretedas an act of brutality by the media.

TRADUZINDO

ABUSO VERBAL 1-40. Em quase todo caso de distúrbios civis ou tumultos, o abuso verbal será uma ferramenta de agressão. Linguagem obscena, comentários raciais, provocações, ridicularizações e zombarias devem sempre ser esperados. É evidente que o propósito de utilizar abuso verbal é enraivecer, desmoralizar e provocar uma resposta física. Soldados indisciplinados, mal-treinados, que encaram um ataque como esse podem agravar a situação. Uma única ação provocada de um soldado pode ser interpretada como um ato de brutalidade pela mídia.

Na pornochanchada abaixo, gravada na noite do dia 11de julho deste ano, podemos notar todo o preparo das forças municipais de segurança de São Leopoldo  que, no paroxismo da sua técnica de controle de multidões, mostram, por meio do experiente agente filmado, o refinado modus operandi de mandar adolescentes que protestam tomarem no cu. Percebam o jeito malandro do guarda que, ao ouvir uma tímida réplica, “tomar no teu”, retorna, pachorrento, procurando uma pá para cavar acusação de desacato. Ainda bem que agora esse tipo de profissional – preparado, que sabe como agir sob pressão – vai ser capacitado (curioso o termo “reciclagem” na matéria deste link) para utilizar armas de fogo.

E os manifestantes ousaram dizer que aquele guarda estava contra eles. Não perceberam que o chapa contribuiu para o aumento do tumulto, disfarçado de protetor do patrimônio do município.

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