Ouvir e Acreditar de Primeira: Não Faça Isso!

por jonasscherer

Apurar informação é coisa que pode ser muito difícil, mas também pode ser bastante fácil. Vai depender de quanto tempo tem o jornalista para a tarefa. Uma coisa é o repórter do jornal diário produzindo notas e reportagens a toque de caixa e com o editor acossando o pobre: pode ser que as fontes não atendam o telefone (sim, a matéria sendo feita por telefone); pode ser que estejam viajando; pode ser que estejam em reunião, e daí a informação é publicada em pedaços e com enxertos… e isso não é incomum.

Assunto bem diverso é o daquele jornalista que tem o tempo (vários têm, só não sabem usar).  Uma técnica efetiva, já mencionada no primeiro parágrafo, e rápida, é a do telefone, invenção recente. Diversas dúvidas podem ser resolvidas facilmente dessa forma. Contudo, é um mistério o da incapacidade de certos periodistas para confirmar um boato por telefone, como se vê pelo Caso Santander-Unisinos, que relato abaixo.

 

O dia em que o jornalista preguiçoso acreditou que o Banco Santander havia comprado a Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Há quase um mês atrás, eu estava passeando pelos corredores da Unisinos, quando encontro um colega geólogo. Conversamos um pouco e ele mencionou as mudanças que percebia no campus “desde quando o Santander comprou a Unisinos”. Estranhei a minha labrostice, por não ficar sabendo de algo tão relevante para o pequeno universo acadêmico que frequento. Perguntei da origem da informação e a resposta foi a clássica teoria conspiracionista daqueles que fazem negócios escondidos de tudo e de todos, até da Comissão de Valores Mobiliários, mas que deixam vazar a informação para reles estudantes universitários. De pronto vi que era um boato; tinha cara de bobagem. Mas sou míope e poderia ter visto errado.

Na mesma noite, encontro casualmente um colega jornalista. No meio da conversa, ele menciona a compra da Unisinos pelo Banco Santander, incluindo a porcentagem das “ações” da universidade que foram adquiridas. Perguntei como ele sabia de tudo isso, porque eu havia acessado os fatos relevantes divulgados pelo Banco Santander nos últimos cinco anos, pelo celular, e nada constara de qualquer tipo de negociação. Num tom misterioso, o camarada afirmou que a fonte era secreta, “dos bastidores”, mas que era quente. Se não estivesse morto, eu acharia que essa fonte era o Garganta Profunda. Disse, ainda, que estava para publicar a notícia em algum site.

Esse “bacharel” não podia errar assim, pois é jornalista e tinha tempo (aqui não interessa a ética de publicar sem tempo. Acontece e é dado empírico válido). Foi treinado para apurar informação, cruzar dados; deveria ser versado no tratamento de informação noticiosa (mas, hoje, qualquer um pode ser jornalista, esqueci disso). Perguntei se ele ouvira o banco e a universidade envolvidos no boato. Não ouvira. Então dei um soco na cara dele por ser tão incompetente e sujar o renome da classe (mentira). Comentei sobre como eu gostaria de ter fontes tão poderosas a ponto de dispensar qualquer tipo de contraditório.

A verdade é que restava óbvio o fato de que tudo fedia muito, fedia a boato de bêbado. Resolvi, para acabar com tudo, pegar o telefone e ligar para:  a) a Universidade do Vale do Rio dos Sinos e b) a assessoria de imprensa do Banco Santander, já que o presidente dessa empresa não tinha tempo para falar comigo.

Simples, rápido e fácil: liguei para a Unisinos; falei com Michele Machado, do setor de comunicação da instituição, e perguntei se, alguma vez, o Banco Santander comprou qualquer parte da Unisinos. A resposta? Não. Nunca. Para o Banco Santander, enviei um e-mail, que foi respondido por telefone: o Santander nunca comprou nem um pedacinho sequer da Unisinos.

Depois de ouvir das bocas delegadas pelas duas instituições a negativa, ainda consultei, novamente, os fatos relevantes e o histórico de aquisições do Banco Santander por meio dos sites da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da BM&FBovespa, da Bolsa de Madrid e da Comisión Nacional del Mercado de Valores (CNMV, a CVM espanhola). Sequer o cheiro de qualquer transação nesse sentido foi encontrado.

Dessa forma, não tem nem graça especular sobre teorias da conspiração acerca dessa compra absurda que nunca aconteceu (mas dizem que um famoso supermercado comprou o Brasil, pode ser verdade…). Questões são levantadas: por que existem pessoas que ouvem e já acreditam? Por que a elas foi dado um cérebro? Quem deu esse cérebro?  São as perguntas centrais de uma série de reportagens investigativas intituladas: “Máfia do Boato”.

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